4º CIMES: União entre empresas e universidades pode ser o fomento necessário à inovação na saúde

Diante das dificuldades em contratar pesquisadores e de conseguir financiamento público, empresas que queiram inovar em seu processo industrial precisam compartilhar portfólio, conhecimento e soluções, segundo especialistas do setor que debateram a inovação no setor da saúde durante o 4° CIMES (Congresso de Inovação em Materiais e Equipamentos para a Saúde), organizado pela ABIMO (Associação Brasileira de Artigos e Equipamentos Médicos, Odontológico e de Laboratórios), que acontece na capital paulista entre hoje (05) e amanhã (06).

Outro ponto muito comentado foi a aproximação com o mundo acadêmico, onde muitas vezes encontra-se dificuldades em dialogar com as empresas. Encontrar projetos em comum e que gerem produtos novos para as empresas e melhorias de pesquisas para as universidades pode ser um dos caminhos a ser seguido. O tema dominou os debates durante o painel “A inovação que o Brasil já realiza”, que contou com a participação de cinco empresas vencedoras e finalistas do prêmio Inova Saúde, organizado anualmente pela ABIMO com o intuito de fomentar o alto padrão tecnológico e inventivo das empresas brasileiras do setor da saúde.

“Pesquisa da FGV (Fundação Getúlio Vargas) mostra que 65% das empresas da área da saúde são consideradas de pequeno porte, com faturamento anual de até R$ 10 milhões por ano. Fica difícil de entender como uma empresa com este faturamento pode ser inovadora e continuar sobrevivendo no Brasil. Em grande parte das empresas o dinheiro acaba quando o produto fica pronto, e não resta recursos para comercializá-lo ou até mesmo investir em novos produtos”, comentou o superintendente da ABIMO, Paulo Henrique Fraccaro.

Para viabilizar novos investimentos, empresas recorrem a financiamentos e parceiras com entidades acadêmicas. O diretor Institucional da ABIMO, Márcio Bósio mostrou dados de pesquisa realizada pela Associação com 100 associados, que entre outros temas, citaram os três principais entraves para a inovação no País: tributação, burocracia e incerteza de resultados.

“Temos um produto de muitas incertezas, pois se trata de algo inédito no mundo e dependemos pesadamente de pesquisas, nossa maior dificuldade sempre foi a necessidade de pós vetores, pois precisamos de profissionais que estão em nível de doutorado e não existe nenhum instrumento de empresa de fomento para ser parceira neste sentido”, destacou Marcelo Amato, da Timpel, empresa vencedora do Inova Saúde deste ano.

Por sua vez, Guilherme Agreli, da Braile Biomédica, vencedora do Inova Saúde de 2012, disse que a busca por financiamentos tem sido um agravante no fomento inventivo dentro da empresa. “Nosso desenvolvimento é bastante ativo e temos uma política de incorporação muito rápida de tecnologia. Lançamos ao menos dez produtos nos últimos anos, mas tivemos problemas com Finep”, afirma com relação ao Financiamento de Estudos e Projetos de apoio à ciência, tecnologia e inovação em empresas, universidades, institutos tecnológicos.

“A dificuldade que temos hoje é do próprio mercado que tem o governo como principal comprador, além de políticas que não acontecem. Internamente percebemos que se ficarmos presos a isso não avançaremos. Estamos bastante estabelecidos com o mercado externo, não temos queixas com empresas de fomento, embora deixe a desejar com os pagamentos [que não seguem o cronograma do projeto inovador]”, ponderou Ílio de Nardi Junior, da Fanem.

Além de empecilhos com financiamentos, a busca por novos e qualificados profissionais foi outro entrave registrado. “Para trazer profissionais é difícil, pois o pesquisador não pode ter outra fonte de renda se não a destinada para a pesquisa. O que estamos fazendo agora, e tem nos mostrado bons resultados, é o trabalho em conjunto com universidades e hospitais, de forma a não trazer o pesquisador para dentro da empresa, embora a empresa esteja participando diretamente com quem sabe quais as necessidades de novos produtos”, comentou Tatsui Suzuki, da Magnamed, empresa do Inova Saúde em 2013.

Por fim, Leonardo Melo, da Diagnext, finalista do prêmio este ano,destacou o espírito inventivo do brasileiro, em comparação a outras culturas mundo afora. “Tem um problema, o brasileiro busca a solução, não ficando preso a modelos usados outrora, embora tivéssemos tido problemas com a burocracia, com dificuldades na implantação do produto. Demoramos quase dois anos de comprovação e mais três de implantação do nosso produto, o que rendeu certa dificuldade, e financeiramente falando, a ajuda [externa de agências fomentadoras] é muito pequena”, destacou.

O diretor da ABIMO e idealizador do prêmio Inova Saúde, Calistro Balestrassi destacou a importância das empresas continuarem investindo em inovação e tecnologia, deixando a Associação à disposição dos empresários para ajudá-los enquanto entidade associativa. “O Estado não acompanha a velocidade da inovação. O Brasil ainda é conhecido como provedor de matéria prima e não de inovação e tecnologia. Precisamos inverter essa imagem”, pontuou.

Ainda segundo a pesquisa ABIMO apresentada por Márcio Bósio, 35% das empresas possuem até três colaboradores no departamento de Pesquisa & Desenvolvimento, e somente 32% possuem planejamento estratégico voltado à inovação. Os dados também mostram que 74% das companhias não utilizam benefícios fiscais de incentivo à pesquisa e desenvolvimento de inovação, como a Lei de Informática e a Lei do Bem. Outro dado interessante mostra que 68% das empresas não realizam pesquisas em parceria com alguma ICT (Instituição de Ciência e Tecnologia), e 76% delas não participam de programas relacionados à qualificação ou inserção de recursos humanos, como o Inova Talentos, PIPE, MEI-CNI (Mobilização Empresarial Pela Inovação da Confederação Nacional da Indústria), entre outros.

Apesar da escassez de linhas de financiamento para inovação, ainda há oportunidades para empresas suprirem as lacunas de desenvolvimento tecnológico e inventivo, em especial com parcerias com alguma ICT, além da capacitação de pessoal.

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